Julho, os últimos 9,90 euros e um cão que só quer pastel de nata
Crónica da praia onde uma tesoureira abre o MB Way em vez de um livro, persegue 9,90 euros de junho e escreve a lista do material escolar entre mergulhos.
Algures numa praia do Algarve, guarda-sol número 12, aquele senhor do quiosque a gritar "gelados, água fresca" pela quinta vez em vinte minutos, uma mulher na espreguiçadeira abre uma aplicação. Não é a do tempo. Não é a das ondas. É o MB Way. Esta é a história da minha terça-feira de julho, que segundo o calendário era férias.
Estamos na terceira semana de verão. O grupo da turma dorme desde o último dia de aulas, mas é aquele sono leve de quem acorda ao primeiro barulho.
O último pagamento, e os juros que eu pago em ansiedade
Em junho, toda a gente pagou a recolha da viagem de finalistas. Toda a gente menos a família Sousa, que deve 9,90 euros desde 29 de maio, número que sei de cor porque já verifiquei umas dez vezes, a última há quarenta minutos, com o protetor solar ainda a secar nas mãos.
Mandei um lembrete simpático a 2 de junho.
- Sem stress nenhum, quando puderes!
Não queria dizer "quando puderes". Queria dizer "por favor, resolvam isto para eu parar de pensar nisto a duzentos quilómetros de casa". Mas não se escreve isso a uma família porreira que provavelmente só se esqueceu, por isso escrevi a versão simpática e deixei o número ali, como uma pedrinha no sapato com que já fiz as pazes.
Puseram um coração na mensagem. Nenhuma transferência. O coração dói mais do que o silêncio.
Setembro a ligar, e o sinal cai sempre na praia
Entretanto, porque ao que parece a minha cabeça não sabe desligar, comecei a lista do material. No telemóvel. Entre um retoque de protetor e um grito ao meu filho para não ir tão para dentro de água, ando a escrever uma nota chamada material_setembro_RASCUNHO2, trinta e sete itens, sem data definida porque marcar a data é admitir que o verão acaba, e uma preocupação fixa com o seguro escolar, que chega sempre na mesma semana da quota da associação de pais, como se combinassem entre eles.
Aqui está a parte que ninguém avisa quando levantamos a mão para ser tesoureiro da turma. Não há folga a sério. Os outros pais fecham o ano letivo dentro do ano letivo. Eu tenho um apêndice, e o apêndice é mais comprido do que o livro.
Enfim.
Uma pequena fuga de assunto, com aviso, sobre sardinhas
Sabias que as sardinhas nadam em cardume tão apertado, todas viradas na mesma direção ao mesmo tempo, exatamente para confundir quem as quer caçar? Um bicho sozinho é presa fácil. Um cardume inteiro parece uma coisa só, sem reunião nenhuma, sem grupo do WhatsApp a combinar quem vira para onde.
Li isto a olhar para o telemóvel à espera da transferência da família Sousa. Achei o paralelo delicado demais para ignorar. As sardinhas organizam-se melhor do que vinte e cinco adultos com smartphone na mão.
Pronto, voltemos ao guarda-sol.
A parte onde falo da aplicação, e paro logo a seguir
A dada altura construímos a ClassKasa exatamente para isto, um link onde cada família vê o que deve e paga sem eu ter de mandar um lembrete da espreguiçadeira, e quem paga o Premium é sempre o tesoureiro, nunca os pais. Não me teria feito chegar os 9,90 euros mais depressa, sinceramente. Há coisas que não se resolvem com uma aplicação. Resolvem-se com a família Sousa.
Enfim. Onde ia eu.
Um cão do quiosque sentou-se a um metro da minha toalha, avaliou o meu pastel de nata com o olhar de quem nunca ouviu um não na vida, e roubou-me um bocado mesmo quando estava a explicar ao meu marido o problema do seguro. Ninguém na praia se importou. O cão nem olhou para trás.
A família Sousa ainda não pagou. A lista do material já vai em trinta e sete itens. Mas o pastel de nata foi-se, a maré sobe de qualquer maneira, e nos próximos quinze minutos o telemóvel fica virado para baixo debaixo da toalha.